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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Paulo Talarico | Jessica Bernardo | Zeca Ferreira

Notícia

Publicado em 03.05.2022 | 18:49 | Alterado em 07.05.2022 | 13:14

Tempo de leitura: 5 min(s)

“Procura-se 120 mil pessoas que não tomaram nem a segunda nem a terceira dose da vacina”. A mensagem faz parte de uma campanha da Prefeitura de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, em um apelo para que moradores que não tomaram as demais doses do imunizante contra o coronavírus, procurem um posto de saúde.

A realidade por ali não é isolada. Na cidade de 375 mil moradores, menos da metade da população tomou a dose de reforço, situação semelhante a de outras 17 cidades da região metropolitana.

Os dados se referem a quantidade de terceira e quarta doses aplicadas, pois o Governo do Estado não tem separado os dados específicos de cada fase, deixando apenas a informação da “dose adicional”. Mesmo assim, a quantidade de imunizados com o reforço não chega a 50% em cidades como Rio Grande da Serra, Itapevi, Ferraz de Vasconcelos, entre outras.

A dose de reforço é aplicada desde outubro do ano passado, enquanto a quarta dose começou a ser aplicada na população idosa em março.

A falta da vacinação acende um alerta em um momento em que os casos e as mortes pela doença estão em queda no Brasil, assim como as taxas de ocupação nos leitos em hospitais por causa da Covid-19.

O receio é que a sensação de “fim da pandemia” afete a mobilização para a aplicação de novas doses e, assim, uma nova onda possa atingir a região.

“A imunidade está caindo ao longo do tempo, se surgir uma nova variante, vamos ter uma corrida em busca da vacina que não é necessária, já que podemos fazer isso de forma mais tranquila agora”, explica Diego Xavier, pesquisador do Observatório da Covid-19, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

Na região metropolitana, a cidade que mais teve imunizados proporcionalmente com a dose adicional foi São Caetano do Sul. Por lá foram 120 mil doses adicionais, somadas a terceira e a quarta, de acordo com o VacinaJá, portal do governo estadual que contabiliza as imunizações. Ao todo, 145 mil pessoas estão com duas doses ou a dose única – considerado o esquema vacinal completo no começo da pandemia.

Na capital, foram quase 8 milhões de doses adicionais até o dia 2 de maio. Por outro lado, 11 milhões receberam duas doses ou a dose única.

Na outra ponta estão as cidades de Itapevi, na região oeste, e Rio Grande da Serra, no ABC Paulista, onde apenas 3 em cada dez moradores tomaram a dose adicional.

No caso de Rio Grande, a cidade foi também a que menos aplicou a segunda dose. Foram aplicadas 14 mil vacinas adicionais, 27 mil na segunda, enquanto a primeira teve 37 mil imunizações. Vivem por lá 51 mil pessoas.

“O município tem a característica de ser uma cidade dormitório e, por essa razão, tem aberto algumas UBS (Unidades Básicas de Saúde) aos fins de semana. Porém, a procura é muito baixa”, afirma a prefeitura da cidade, problema citado também por outras gestões.

Para Xavier, entre os fatores para a baixa procura está a falta de conscientização sobre a necessidade da dose adicional, campanhas contra as vacinas e, também, a sensação de que a infecção tem o mesmo potencial da vacina.

“Muita gente acabou contaminada pela variante Ômicron, teve um caso mais leve de Covid e está acreditando, por conta de notícias equivocadas, que a imunidade do contágio substitui a das vacinas. Não é verdade”, diz.

Vacina em posto da capital. 11 milhões estão com o esquema vacinal completo, mas foram aplicadas apenas 8 milhões de doses de reforço

Essa explicação encontra exemplos entre os não vacinados. Em Carapicuíba, enquanto 362 mil tomaram a primeira dose, apenas 186 mil imunizantes foram usados como doses de reforço.

Um dos que não retornaram é Jeferson da Silva, 27. “Não tomei a minha segunda nem a terceira porque não vi que ela agregava, porque eu ouvia muitos relatos de quem tomou e pegou Covid”, afirma.

“Não me senti obrigado a tomar por esse motivo, porque se ela não fez efeito nenhum aí então não tem pra que tomar”, diz. Apesar disso, ele não minimiza os efeitos da pandemia. “Eu continuo usando máscaras, mesmo com a liberação”.

O medo também foi apontado por moradores. “Não tomei, porque não tive tempo e também porque vi a pessoa tomar a terceira dose e vir dar os negócios nas pessoas”, afirma Júlio Cesar, 23, morador do Jardim Popular, em Carapicuíba, na Grande São Paulo.

A vacina, contudo, não impede que as pessoas se contaminem, mas evita os casos graves, reduz as internações e as mortes. A falta dessas informações, para Xavier, está na falta de ações para divulgar a necessidade de seguir se imunizando e de que teremos de aprender a conviver com o vírus.

“Nunca tivemos campanha massiva, explicando a importância da terceira dose. E as pessoas estão abandonando, acreditando nesse período de tranquilidade”

Diego Xavier, da Fiocruz

Ele ressalta que a diferença entre cidades pode prejudicar a imunização coletiva e que o vírus não respeita limites políticos administrativos. Ou seja, a falta de vacinação em um município pode comprometer o atendimento ao redor.

A terceira dose ajuda a reduzir a propagação do vírus e, com isso, diminui também a chance de novas variantes do coronavírus surgirem.

No estado de São Paulo, foram 26 milhões de terceiras e quartas doses – ao todo foram 42 milhões da primeira dose.

Atualmente, pessoas com mais de 60 anos já podem tomar a quarta dose da vacina contra o coronavírus no estado. A aplicação começou a partir do dia 5, mas algumas cidades adiantaram o calendário.

Outro lado

Questionamos as prefeituras com menos adesão à terceira dose da vacina. A prefeitura de Rio Grande da Serra afirma que a secretaria de Saúde tem feito busca ativa nas residências para incentivar munícipes que não completaram o esquema vacinal. A população pode se vacinar nas 8 UBS da cidade.

“Não há falta de doses. A dificuldade é a adesão da população”, afirma a Prefeitura de Itaquaquecetuba, que ressalta estender os horários das unidades de saúde até 19h30. “As ações de busca ativa são feitas por ligação, mensagens via WhatsApp, visitas domiciliares e campanha pelas redes sociais”.

A prefeitura de Ferraz de Vasconcelos afirmou que mantém “campanhas permanentes de mobilização e conscientização da vacinação” nas redes sociais, além de lives, peças publicitárias e informativos nas UBS (Unidades Básicas de Saúde). Diz também realizar busca ativa dos faltosos e ainda estratégias de campanhas temáticas aos fins de semana.

A gestão aponta que 74 mil doses adicionais foram aplicadas e que cobriu 57% do público alvo. Cerca de 154 mil tomaram a primeira dose e 133 mil a segunda.

Em Poá, a gestão afirma ter doses suficientes para todos completarem o ciclo vacinal e que também busca por meio das redes sociais fazer campanhas, além de busca ativa de moradores por telefone.

A Prefeitura de Jandira nega dificuldades para aplicação da terceira dose. “A Secretaria Municipal de Saúde ressalta que temos oficialmente taxas de cobertura vacinal diferenciadas por faixa etária sendo 18-59 anos de 36% e de 60 anos ou mais de 77%”, diz a pasta.

“A disponibilidade está na rotina das unidades de saúde e no último dia 27/03 (domingo) fizemos ação de vacinação em 3 mercados do município”.

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Paulo Talarico

Editor-chefe e cofundador da Agência Mural, é formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu e em História pela Universidade de São Paulo.

Jessica Bernardo

Jornalista, cria de uma família de cearenses. Apaixonada por São Paulo, bolos e banhos de mar. Correspondente do Grajaú desde 2017.

Zeca Ferreira

Estudante de jornalismo na Universidade de São Paulo. Filho de migrantes nordestinos, acredita que a informação tem o poder de transformar realidades. Correspondente de Carapicuíba desde 2021.

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