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Morador da zona leste, Alex Mauser dá palestras em escolas sobre racismo, trabalho e a vida na periferia

Atualmente motoboy, ele cresceu no Jardim Marília e já passou por mais 200 instituições entre escolas públicas e na Fundação Casa

Dos rachões no campinho de terra batida, descidas com carrinho de rolimã pelos morros, e caminhadas pelo longo escadão da rua Pedro de Mena, Alex Ferreira Costa, 42, viu as transformações no Jardim Marília, na zona leste de São Paulo. 

Hoje, ele leva para as salas de aula essa experiência sobre as mudanças nas periferias nos anos 1980, 1990 e 2000.

Costa, que trabalha como motoboy na zona leste, passou por mais de 200 escolas públicas e em sedes da Fundação Casa, para falar sobre a realidade vivida no alto dos 42 anos. 

Nas salas, aborda desde racismo, violência policial, criminalidade, funk até chegar em referências como Malcon X (ativista norte-americano pelos movimentos dos direitos civis, morto em 1965), a escritora Carolina Maria de Jesus (autora de Quarto de Despejo e morta em 1977) e também a própria história na periferia da capital. 

Alex Mauser em frente ao campinho onde jogava na infânciaGabriela Alves/Agência Mural

As próximas palestras serão nas escolas Maestro Brenno Rossi e Professor Sérgio da Silva Nobreza, ambas da rede estadual. E estão previstas para o final de abril. 

Mais conhecido como Alex Mauser, filho caçula da doméstica Teresa Ferreira Costa e do pintor Sebastião Jacinto Costa, ele teve uma infância agitada desde o primeiro contato com a pré-escola. “Era muito arteiro, sempre que ia para o parquinho ficava de castigo. Isso ficou na minha cabeça”, conta. 

Com o tempo, descobriu o futebol de várzea no campo em frente de casa. Outra diversão era nadar na lagoa onde hoje fica o Shopping Aricanduva, a aproximadamente um quilômetro de casa. “Com sete anos já ia lá, muita gente morria afogada, mas, não tinha noção do risco”, alerta.

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Por volta dos oitos anos, no 3º ano do ensino fundamental, parou de estudar. Pouco mais tarde, com 13 anos, encontrou um livro na estante de casa que chamou a atenção. A obra falava sobre política e era de Karl Marx. O texto despertou o interesse de Mauser pela leitura. Porém, não tinha acesso fácil aos exemplares. 

A primeira visita a uma escola foi aos 37 anos, quando foi convidado pela irmã e professora Teresa Cristina, na escola municipal Francisco Alves Mendes Filho – Chico Mendes. Dali em diante não parou mais.

“Fiz a minha primeira palestra e, em seguida, chamei o rapper Dexter, fiquei um mês planejando. Juntei três escolas no CEU Aricanduva para o evento”, recorda.  Na época, o músico estava preso e teve que conciliar com o calendário de saída temporária.   

Mauser começou a falar para até três escolas no mesmo dia. Nisso, percorreu salas de aulas de várias periferias da cidade como os distritos de Itaquera, Guaianases, Cidade Tiradentes e São Mateus. 

Também visitou colégios em bairros da zona norte, zona oeste e na região do ABC, na Grande São Paulo. “Parei minha vida para isso. E, às vezes, pegava vários turnos – manhã, tarde e noite – em uma mesma escola. Não tinha tempo para respirar”, relata. 

Alex Mauser e Rincon Sapiência em escolaArquivo Pessoal

Em outubro de 2017, trouxe o MC Rincon Sapiência para cantar sucessos como a participação na música “Ginga” da cantora Iza. 

“A gente se conheceu na infância, ele frequentava a quebrada. Um amigo em comum tinha um time na Cohab 1 – Itaquera e jogávamos juntos. Reencontrei o Ricon quando estava voando, no auge. Foi um sonho”, lembra. 

É PRECISO TER VIVÊNCIA

As conversas com os alunos duram aproximadamente duas horas. “Precisa ter vivência, porque a molecada quer o resultado para o agora. E são duas alternativas que encontram, o funk ou o crime. É um tiro no escuro e eu já quis dar”, enfatiza.

Os exemplos estão na própria trajetória de Mauser. Aos 14 anos, entrou de cabeça no “mundão”, segundo ele. Ficava pelas ruas por dias sem dar notícia. Mas sempre lembrava de voltar para casa porque os pais estavam esperando. Conta que passou a usar drogas e se envolver em crimes. 

Mais tarde, aos 16 anos, conheceu a cena punk. Fez amizades e conheceu novos lugares. Até que viu no topo de um prédio um pixo e queria saber como conseguiram chegar até ali. Trocou o rock ‘in roll pelas latas de tinta: pixou de beirais até os lugares mais altos de São Paulo por 20 anos.

Decidiu parar após episódios de racismo. “Enquadraram eu e um amigo, os policiais perguntaram para ele como tinha coragem de andar com um ‘neguinho fedido’ sendo branco. Enquanto isso, me batiam”, narra.

Alex tem trabalhado em uma publicação sobre Carolina de JesusGabriela Alves/Agência Mural

RACISMO

Nas escolas, fala sobre as origens sendo um homem negro e periférico. Trata desde a escravidão, com fotos de mulheres escravas retratadas como propriedade para reprodução. E seguindo por imagens de negros e brancos segregados pelos lugares nos bancos dos ônibus. 

Também mostra a imagem, considerada histórica, de Ruby Bridges, uma menina negra americana de seis anos, caminhando para escola escoltada por policiais, em 1960, quando começava a abertura para integração nas escolas dos Estados Unidos entre negros e brancos.

Ressalta a importância de pensar no mercado de trabalho e levanta questões sobre a situação das profissões.

“A minha função é abrir mentes. Uma profissão que existe hoje, amanhã pode estar em desuso. E onde a periferia se encaixa no mercado de trabalho daqui 20 anos?”, questiona Mauser. 

No início do ano, Mauser recebeu o último convite para palestrar na Fundação Casa, localizada no Brás, região central paulistana. “Fiz uns 15 marmanjos cair no choro, é importante ter uma referência para eles”, diz. 

A lembrança do livro na estante de casa durante a adolescência trouxe à tona a vontade de registrar, em forma de diário, todas as fases da vida. 

Em produção, com ajuda da professora Sirlene Barbosa, uma das responsáveis pela HQ que conta a história de Carolina Maria de Jesus, o “Ruas de Terra” deve ser publicado em breve. “Existem várias Carolinas de Jesus na quebrada, só não contaram as histórias delas ainda”, termina.

Gabriela Alves

Jornalista, 23 anos, correspondente de Guaianases desde 2019. Entusiasta apaixonada por música.

Guaianases, São Paulo

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