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Batalhas de rimas voltam ao cenário cultural das periferias de Salvador

Duelos interrompidos pela pandemia começam a formar agendas e movimentar competições entre jovens MCs nas praças da cidade
Os MCs Cardy, Shaft e Mahina são organizadores das batalhas Nova Era e Zeferina | Eduardo Machado/Agência Mural

“Quero ver matar ele! Quero ver matar ele!”. Ecoada em coro por jovens das mais diversas idades, identidades e territórios de Salvador, a provocação, apesar da linguagem agressiva, é um convite poético de convocação à Batalha da Revolução, um duelo de rimas improvisadas entre MCs realizado na tarde do último sábado (4), na Praça da Revolução, em Periperi, no Subúrbio Ferroviário de Salvador.

Para o evento acontecer, participantes e público enfrentam outra luta atual em campo, cujo principal desafio continua sendo o de manter os devidos cuidados de enfrentamento à Covid-19.

“Agora já está melhor, tudo certo. A maioria dos MCs estão vacinados ou com a primeira dose. Com isso os duelos voltam a acontecer cumprindo todas as medidas preventivas necessárias”, destaca um dos organizadores, Junior Anjos, 21, conhecido como MC J.N, que gesticula com as mãos mostrando a máscara e o álcool em gel na mesa. 

O rapper e também organizador da batalha, Everton Nelson Portela, 20, o E.V MC,  ressalta a motivação para retomar os trabalhos de valorização da cultura hip hop e difusão da cultura popular.

“É um encontro de pessoas negras e periféricas, que vivem isolados cultural e socialmente. Mesmo sendo maioria, e a gente se unindo, é perceptível essa motivação de luta e resistência que são as batalhas, além de sermos espelhos para outras crianças e jovens de nossas comunidades como símbolo de cultura e de união”, diz E.V MC.

MC Pitbull, que tem 113 títulos de batalhas | Arquivo Pessoal/@Pitbull.astro

Com o isolamento social por conta da pandemia, artistas populares que tem a rua como palco para apresentar e viver do trabalho artístico vivenciam momentos de incertezas e dificuldades, aponta a jovem poetisa Beatriz Santos, 19, moradora de Periperi, estudante e trabalhadora do mercado informal.

“Trabalhava o tempo todo fazendo poesia nos coletivos e tive que parar por conta da pandemia. Foi muito complicado, tive bloqueio criativo, dificuldades, mas fui me virando, me reinventando. E esse retorno das batalhas a gente tem que aproveitar para recarregar as energias, para se unir e poder trocar informação”, reforça.  

 A estudante Raíssa Vitória, 24, diz gostar bastante da cultura do hip hop e não perdeu tempo com o retorno dos duelos de MCs para apresentar à filha Maria Joana, de 8 meses, à cena do rap. Moradora de Periperi, ela destaca a oportunidade das comunidades respirarem arte no evento. 

“Depois de quase dois anos, a gente sem poder sair, sem poder ter uma batalha e agora poder encontrar de novo as pessoas é muito bom, sobretudo para mim que trago pela primeira vez a minha pequena”, diz Raíssa.

Para o competidor Wallace Santos de Jesus, 11, morador da Urbis de Periperi e o mais novo concorrente da batalha ao prêmio de R$ 50, a competição é uma inspiração. “Lembro que estava passando e vi um monte de gente reunida. Aí vim perguntar o que era e falaram sobre a Batalha de Rap. Depois me inscrevi para poder rimar. A Batalha da Revolução me inspirou muito para poder rimar”, relata.

A regra das batalhas é bem simples, cada MC tem 30 segundos para desenvolver suas rimas, um round para cada, se houver empate é feito o terceiro round. A decisão fica por parte do público que se manifesta através de gritos ou levantando as mãos para contagem de votos. Rimas criativas e o respeito à diversidade presente são pontos cruciais para definir quem leva o título do duelo das batalhas. 

Morador da comunidade Cosme de Faria e estreante na Batalha da Revolução (@batalhadarevolucao), George dos Santos, 18, ou MC Pitbull (@Pitbull.astro), foi o campeão da disputa, que contou com 16 participantes dos diversos bairros da capital. Ele levou para casa o prêmio de R$ 50 e um kit de brindes da Tabacaria WM (@tabacariawm071), que patrocina o evento. 

Com caminhada na cena da improvisação, o jovem soma com esse prêmio 113 títulos de batalhas e comemora o retorno das disputas, lembrando do impacto do vírus nessa agenda. “Infelizmente esse bagulho de pandemia veio atrapalhar um pouco, mas para mim é natureza mostrando que não somos mais fortes e estamos de, certa forma, ferindo  ela (a natureza)”, reflete o campeão MC Pitbull.

Dato e Shaft MC, organizadores da Batalha da Zeferina | Eduardo Machado/Agência Mural

OUTRAS PRAÇAS DE BATALHAS

Com agenda todas as quintas-feiras, às 15h, na rotatória da praça do Jardim Botânico, no bairro de São Marcos, acontece a Batalha Nova Era (@bne_batalhanovaera). 

A função, segundo os organizadores, é a informação e a formação da juventude por meio da cultura. Para MC Mahina, 17, moradora do bairro e uma das organizadoras do evento, é importante manter uma série de atividades voltadas para os jovens.

“O principal foco é tirar a galera do tráfico, tá ligado? Esse é o nosso alvo. Para além da batalha, fazemos uma roda de poesias, temos projetos de arrecadação de livros para uma biblioteca e também incentivamos, por meio da produtora Todú Canto, outras batalhas com divulgação e planejamento de comunicação”, diz. 

Wendel Santos, 20, conhecido como Cardy MC, um dos criadores da Batalha Nova Era, conta que a disputa acontece desde dezembro de 2019, mas deu uma pausa devido a pandemia da Covid-19, e só voltou a acontecer em julho de deste ano. 

Ele destaca o desafio de realizar as rodas de rima no momento atual, apesar do avanço da vacina e da flexibilização de algumas medidas que tornaram-se importantes para esse retorno. 

“É mais difícil porque a galera é um pouco cabeça dura, mas a gente sempre vai reforçando o uso da máscara e do álcool em gel para poder, não só se proteger, mas proteger a todos que estão no ambiente”, conta Cardy MC. 

MCs na Batalha de Zeferina, em Periperi | Divulgação/Zero7um.prod

No bairro da Liberdade, a competição Batalha da Matilha (@batalha_da_matilha)  é organizada pelos MCs Lucas Limão, 24, e a Mc Loza, 20, e acontece às segundas-feiras, no Largo da Soledade, com o apoio da Todú Canto Produção (@Toducanto). 

Limão explica que o evento cultural que ocorre há 2 anos, busca dar visibilidade a cena do rap em Salvador, além de agregar outros elementos como o grafite e o break. Também há espaço para outras manifestações de cultura popular e de rua como  a capoeira. Contudo, a proposta de começar com regularidade, após alguns eventos aleatórios entre o ano passado e este, exige cautela e consciência. 

“Tentamos retornar em 2020, mas não conseguimos e preferimos nos recolher porque as condições não estavam favoráveis. Sabemos que é real, para quem segue a ciência e, saber que seríamos responsáveis pela transmissão do vírus para outras pessoas que não escolheram é complicado. Agora está acontecendo com todas as medidas preventivas necessárias”, diz MC Lucas Limão.  

Em Periperi, os jovens Leonardo Silva dos Santos, 21, e Jadson Souza Aragão, 21, mais conhecidos, respectivamente, como Shaft e Dato Mc são realizadores da Batalha da Zeferina (@batalhadazeferina) que acontece no Conjunto Habitacional Guerreira Zeferina, quinzenalmente aos sábados à tarde. 

Shaft MC destaca o apoio conquistado para o evento no bairro. “A Batalha da Zeferina inspira outras pessoas, porque a comunidade toda abraça e apoia. Inclusive, a gente tem conquistado espaço dentro da comunidade”. 

E exemplifica: “Os bares dão um apoio para gente com água, as pessoas se envolvem e participam, aos poucos vem chegando, ajuda com uma camisa, um amigo fotografa, um vizinho fortalece com a luz e o microfone e assim vai crescendo, se estruturando”, diz Shaft MC. 

Para Dato MC, o isolamento com o período da pandemia e a ausência das manifestações artísticas nos territórios periféricos ressaltam consequências como o avanço da cultura da violência. 

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“Quando a cultura não ocupa o espaço que deve ocupar por direito, outras coisas ocupam como o crime e a violência.  Quando existe escassez de cultura, a violência toma esse espaço”, observa. 

Segundo dados divulgados pelo relatório “A vida resiste: além dos dados da violência (2021)“, da Rede de Observatórios da Segurança, de junho de 2019 a maio deste ano, a Bahia registrou 247 vítimas em chacinas, sendo que 165 foram vítimas fatais.

Gustavo Aquino tem 21 anos e há cerca de 12 anos participa das batalhas de rap em Salvador. Conhecido popularmente como Arch, ele entende que a vida é um freestyle (estilo livre) e destaca a importância do hip hop na sua caminhada.

“Sofro de síndrome de pensamento acelerado, tenho histórico depressivo e cheguei a passar um ano e oito meses trancado no quarto e, graças às batalhas consegui sair, tive essa cura”, destaca Aquino.

Artista criado nas ruas da Glória, em Mirantes de Periperi, Lucas Santos Leite, 27, o Urubu do Quilombo (@UrubudoQuilombo) é figura carimbada nas rodas de rapper soteropolitanas. 

Para Urubu do Quilombo, que também é militante do Coletivo Incomode e poeta de rua, ver os encontros culturais em praças públicas como ferramentas para interligar artistas é uma ‘válvula de escape’ para muitas pessoas sem acessos a espaços culturais. 

“Para mim é algo muito importante o retorno das batalhas, porque é um caldeirão misto de Cultura um círculo que está em constante movimento, as batalhas são pontos de ignição para muitos artistas ascenderem no cenário musical”.

Eduardo Machado

Jornalista e correspondente do bairro Lobato no Subúrbio/ Ilhas em Salvador, BA, desde 2020. É educador referência e articulador político. Integra assessorias de Movimentos Negros e a Rede de Religiões de Matriz Africana do Subúrbio Ferroviário de Salvador. É Ogan no Ilê Axé Torrun Gunan e pai de Kaiyê Dan.

Salvador/BA

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