• Informações apuradas pela Agência Mural por meio de dados e entrevistas, buscando ouvir todos os lados envolvidos e seguindo nossa linha editorial.
    Notícia

“Com bicicletas, a periferia sairia melhor da pandemia”, dizem ciclistas em SP

Para ciclistas que vivem nas periferias, mais possibilidades de uso de bicicletas ajudaria a evitar propagação da Covid-19

O balconista João Alexandre Binotti, 39, pedala todos os dias cerca de 13 km entre a  Vila Jacuí, onde mora na zona leste de São Paulo, até chegar ao trabalho, na Penha.

Ciclista há mais de duas décadas, teve de adaptar ao trajeto as mudanças impostas pela pandemia do novo coronavírus. “Tem que ter mais limpeza e higienização da bicicleta, além disso, o uso da máscara e evitar deslocamento desnecessários”, diz. 

Por outro lado, esses cuidados são mais simples do que evitar aglomerações no transporte público. É que aponta Binotti e outros ciclistas das periferias que veem o incentivo ao uso de bicicletas como uma forma de ajudar no enfrentamento da pandemia da Covid-19. 

Crédito: Acervo pessoalPara João Alexandre Binotti o uso das bicicletas poderia ajudar São Paulo no combate à Covid-19

Em meio ao relaxamento das medidas de isolamento e a volta de vários moradores ao trabalho, o debate sobre a falta de faixas exclusivas e qualidade das ciclovias e ciclofaixas implantadas na capital voltou à pauta. “As ciclovias são insuficientes, pois não estão conectadas entre si, principalmente na zona leste e sul”, critica.

Com a quarentena e as medidas de proteção contra a Covid-19, diversas políticas públicas foram adotadas para diminuir aglomerações. Em São Paulo, organizações de ciclistas pediram à gestão Bruno Covas (PSDB) condições seguras para deslocamentos a pé e de bicicleta. 

VEJA TAMBÉM:
Confira o avanço de casos de Covid-19 na Grande São Paulo
Se sair, não leve o coronavírus para casa; Veja orientações
Sepultadores relatam pressão no trabalho e o preconceito contra a profissão

Algumas cidades no mundo se planejaram neste sentido. Bogotá, a capital colombiana, implantou, desde o primeiro dia de quarentena, ciclovias temporárias como forma de evitar aglomeração no transporte público. Na Europa, Londres, Bruxelas e Roma também aderiram à ideia. 

Em abril, a OMS (Organização Mundial da Saúde) também recomendou a bicicleta para deslocamento durante a pandemia. Segundo a entidade, ela “permite distanciamento social, enquanto proporciona o mínimo de atividade física necessária por dia”. 

No bairro de Rio Bonito, zona sul da cidade, o motorista Anderson Sampaio Coelho, 45, também costuma ir ao trabalho de bicicleta, mas não é tarefa fácil. Encontra buracos que dificultam a pedalada, além de vias sem sinalização específica

Crédito: Acervo pessoalNa zona sul, Anderson Coelho relata dificuldades no trajeto com a bicicleta

Com o contrato de trabalho suspenso por dois meses por causa da pandemia, ele tem usado a bicicleta nos trajetos que fez nas últimas semanas. “A pandemia não me afetou, muito pelo contrário, estou andando mais com ela para todos os lados”, confirma. “Se tivesse mais ciclovia, poderia ajudar [a evitar a Covid-19] porque foge do transporte coletivo e cuida da saúde”. 

Diretora de Participação Pública da Ciclocidade (Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo), Aline Cavalcante, 34, concorda com a ideia, mas salienta que são medidas complementares. “Devemos considerar como políticas complementares de mobilidade e assistência. Isolada, a malha cicloviária não soluciona os problemas. A gente também precisa de infraestrutura que permita esses deslocamentos e que ligue os meios de transportes”. 

Para Aline, os deslocamentos nas periferias seriam melhores se São Paulo tivesse um planejamento para criar mais quilômetros de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas, as chamadas vias calmas. “O coronavírus exige espaço e naturalmente é preciso liberar espaço da rua e da cidade para ampliar o distanciamento”, aponta.  

Diretora na Ciclocidade, Aline Cavalcante afirma que os esforços da cidade deve estar no Plano Cicloviário
Crédito: Acervo pessoalDiretora na Ciclocidade, Aline Cavalcante afirma que os esforços da cidade deve estar no Plano Cicloviário

Um dos maiores problemas em São Paulo é uso excessivo dos carros nos deslocamentos, segundo a diretora. Ela cita que o carro no mundo é problema desde antes da pandemia, mas o vírus intensificou a questão. “A bicicleta é complementar, mas permite o isolamento, é um veículo individual e estimula a saúde mental”, completa.

Por fim, Aline diz que as pessoas precisam de mais linhas de ônibus e auxílios financeiros emergenciais que permitam o isolamento físico e evite deslocamentos desnecessários. 

O próximo passo da Ciclocidade é a reivindicação do Plano Cicloviário de São Paulo, com a implantação de 173 km de ciclovias e ajuste em 25 delas. 

A meta do prefeito Bruno Covas (PSDB) era de instalar as novas ciclofaixas e ciclovias até o final deste ano. “Estamos concentrados no que é permanente porque é política de estado”, finaliza Aline. 

Procurada, a Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes (SMT) disse que assinou, em 10 de junho, um Termo de Cooperação com a empresa Uber para a operação da Ciclofaixa de Lazer na cidade aos domingos e feriados. A empresa vai operar os 117 quilômetros da Ciclofaixa de Lazer por 12 meses. 

A resposta diz ainda que a Prefeitura vai manter as obras previstas no Plano Cicloviário, lançado no fim de 2019. A SMT se limitou a dizer que as primeiras novas conexões devem ser entregues em breve, sem citar data. 

O Plano Cicloviário promove a requalificação de 310 km, dos 503 km de infraestruturas cicloviárias existentes na cidade. O Plano também implementa 173 km de novas conexões, que irão integrar as ciclovias existentes formando uma malha integrada entre si e aos demais modais de transporte por meio de terminais de ônibus e estações de trem e metrô.

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

Comentários