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Influenciadoras fogem do estereótipo e conquistam renda nas periferias

‘Ser influenciadora que veio da periferia é importante para mostrar a realidade de vida de outras pessoas’, diz criadora de página em Mogi das Cruzes

As criadoras de conteúdo Kátia Ellen, Luciana Leão, Stella Cristina e Tamires Silva, somam juntas 73.658 seguidores no Instagram, além de outras redes sociais. Elas falam sobre beleza e moda, além de publicar opiniões, sugestões e situações do cotidiano. 

Elas são influenciadoras das periferias e não mascaram o que vivem para se conectar com seguidores que, na maioria, compartilham da mesma realidade. O trabalho vem rendendo mais que likes. 

“Ter uma pessoa da periferia [falando] para a periferia é como se fosse um tradutor de línguas, né?”, aponta Kátia Ellen Felix Alves, 22, do distrito de Jundiapeba, periferia de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo

Katia é de Jundiapeba e tem 3.000 seguidores | Arquivo Pessoal

Kátia (@katiaelleen) começou a postar conteúdo sobre moda e maquiagem em 2017. Para ela, o trabalho fornece um local de troca, sobretudo entre quem mora nas quebradas da cidade. 

“Pego coisas que me influenciaram também, de outros lugares, de outras regiões e trago pra cá e mostro que a gente não precisa sair daqui [do nosso bairro] para construir alguma coisa legal.” 

Mãe de uma criança de 2 anos de idade, ela trabalha como trancista e maquiadora, e produz conteúdo para diversos nichos.

“Gosto de trabalhar com conteúdo de beleza, moda e brechó. Mostro que aqui é o meu cotidiano, a vida de mãe, a vida enquanto mulher preta, sobre meus trabalhos, as minhas vontades, e até os meus lazeres”, explica. 

Dividir a experiência da maternidade fez com que as seguidoras enxergassem o filho, Malik, como alguém de suas próprias famílias. “Elas acompanham ele desde pequeno. Fico muito feliz de saber que as pessoas têm um carinho muito grande com meu filho e muitas delas nunca o viram pessoalmente”, diz.

Do outro lado do mapa, na periferia de Osasco, também na Grande São Paulo, Stella Cristina Flávio, 25, produz conteúdo na internet há 5 anos na @stellacflavio. A trajetória dela começou com um post no Facebook, quando pintou o cabelo de rosa e recebeu centenas de comentários sobre a influência dela em questões ligadas à autoestima, cabelo e raça. 

Na visão de Stella, ser uma mulher periférica e influenciadora está em um lugar de desmistificar preconceitos e estereótipos.

“Ser influenciadora que veio da periferia é importante para poder mostrar a realidade de vida de outras pessoas. Pessoas da periferia são muito mais do que estereótipo de bandido, marginal e favelado”, ressalta.

Em Guaianases, zona leste de São Paulo, a modelo Tamires Silva, 23, pensa parecido ao produzir conteúdo para a rede (@eutamiresdasilva). “Não é sobre a romantização da periferia, é sobre a humanização, é basicamente falar sobre algo que ninguém quer falar”, conta. 

“Minhas publicações não são programadas, não crio um roteiro. Gosto muito de mostrar a minha realidade na periferia e não mascarar, mas mostrar um recorte que faça com que as pessoas entendam que isso é real e não tem nenhum problema.”

Com um olhar atento para fotografia, arte urbana, música e moda, ela já fez alguns trabalhos remunerados como influenciadora e concentra 37 mil seguidores no Instagram. 

Tamires Silva, influencer de Guaianases | Eleganza Urbanóide/Divulgação

A trajetória como influenciadora começou em 2018, após estampar uma campanha publicitária de cabelos cacheados. Depois disso, viu o número de seguidores saltar.

Ela também ressalta que apesar do tema que atrai mais engajamento seja cabelo, ela não quer falar sobre. “Infelizmente o tema que mais engaja no meu Instagram é o cabelo, embora eu não fale sobre isso e às vezes passa a ser uma chateação porque existe uma cobrança de que mulheres pretas com cabelos cacheados, crespos, encaracolados falem sobre isso e nós somos mais do que isso.”

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No caso de Luciana Guesso Leão (@lucianamogi), 38, moradora do bairro Mogilar, em Mogi das Cruzes, ela decidiu ser influenciadora digital em março de 2020, quando começou a ganhar seguidores ao postar algumas fotos como modelo para vender lingeries. 

Com parte da renda comprometida por causa da pandemia e do fechamento do comércio, Luciana procurava uma nova forma de complementar o salário de designer gráfica. 

“Estava pensando numa forma de ganhar dinheiro e aí tive uma ideia de criar um site para vender lingeries. Já que não tenho como pagar uma modelo, pensei que eu mesmo poderia ser a modelo da minha empresa, do meu site”, conta. Ao postar o ensaio, alcançou a marca de 12,7 mil seguidores no Instagram.

A designer conta que chegou a ser recriminada por causa das fotos sensuais que postava. “As pessoas mais próximas pensaram que eu estava atrás de contatinhos, de namorado, mas nunca foi com esse objetivo, queria conseguir seguidores para futuramente divulgar empresas, marcas e obter retorno financeiro com o meu perfil.”

Luciana usou as redes para impulsionar as vendas de lingerie | Arquivo Pessoal

DICAS E INVESTIMENTO

Para produzir um conteúdo com maior qualidade, as blogueiras investiram em equipamentos. Stella, que também é dona de uma loja online de laces e trancista, frisa que não é essencial gastar um valor alto para quem está começando. 

“Na minha luz [item que melhora a iluminação no vídeo], gastei em torno de R$ 90 e no meu celular gastei R$ 3.500. Mas dá pra começar com o básico e o que você tem ali e depois quando tiver uma renda melhor, investir para poder melhorar o conteúdo”, conta.

Kátia diz que a parte estética e de fotografia têm grande poder de influência, e decidiu investir na imagem do seu próprio quarto para gravar conteúdo.

“Se vejo alguma coisa que é bonita, isso me prende no vídeo. Eu pintei meu armário de rosa e as pessoas falam no meu armário rosa, entendeu?”, exemplifica.

Ao realizar uma mudança no quarto, ela fez questão de gravar e mostrar alternativas baratas de reforma para quem está com a grana curta. “Tudo no meu quarto foi feito com ideias que fossem baratas e que fossem acessíveis, tanto para mim quanto para quem perguntar como eu fiz”, finaliza Kátia. 

Luciana ainda não realizou nenhum investimento em equipamentos, porém faz um planejamento futuro para entregar conteúdos melhores. “Pretendo em breve ter um celular com uma boa qualidade fotográfica e, por ser designer gráfica, arrumo a foto antes de postar e procuro recursos [tecnológicos] ao meu alcance.”

Na necessidade de aperfeiçoar o conteúdo, Tamires investiu em um aparelho telefônico. “Como gosto muito de foto, investi num celular e comprei por volta de R$ 3.000. Escolhi um [aparelho] que pudesse melhorar as minhas fotos e os meus vídeos”, diz.

Estela Aguiar

Jornalista em formação, correspondente do Jardim João XXIII desde 2019. É fiel à crença de que da ponte pra cá, o jornalismo é revolucionário.

João XXIII, São Paulo

Jessica Silva

Jornalista, correspondente de Mogi das Cruzes desde 2013. Formada em Pedagogia e Mestranda em Educação pela PUC-SP. Amante de fotografia, séries e filmes.

Mogi das Cruzes

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

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